Domingo, Março 09, 2003

Acredito que eu esteja mesmo perdendo a velocidade tensa com que escrevia antes, mas talvez esteja lentamente conseguindo um modo melhor de visualisá-la. Não volto mais para frases já construídas, agora elimino tantas construções que me parecem inúteis para qualquer fim. O fim dos surtos criativos talvez signifique o início de alguma outra coisa de que não tenho exata noçao.

Ricardo_de_Almeida_Rocha

Sexta-feira, Março 07, 2003

Preciso acreditar que o fato de estar estabelecido, que ter me afastado para sempre da estrada, das casas estranhas e dos quartos de hotel é uma fase nova, talvez definitiva, em minha escrita. Porque, se bem me lembro, quando estava com frio e fome, sem ter onde dormir ou saber quando faria a próxima refeição, havia a "minha escrita", era um fato consumado o "sentimento de missão" descrito em "Folhas Partidas". Hoje duvido. Então o bem tornou-se mal? tenho mais que o velho caderno minha fábrica, tenho o computador, um lugar, há quase dez anos uma subsistência, como jamais. É preciso fazer isso se refletir na literatura. Então, parágrafo por parágrafo, seja, nesse calor quase insuportável do março capixaba após o Carnaval, sigo adiante.


Ricardo_Rocha

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Sábado, Janeiro 25, 2003

"Assim como a bondade,
ainda que mesmo através de arrependimento,
necessita do pecado..." (José P. di Cavalcanti Jr)."

Não consegui esquecer aquela cena final de "Conta Comigo" ("Stand by me", Sessao da Tarde ontem), quando o narrador diz, ao voltar, que embora a cidade fosse a mesma, era como se fosse outra... Realmente, cada saidinha que a gente dá - e aí vale de cidade, de país, até de casa às vezes - a volta é muitas vezes um choque em nossas visoes anteriores à saida. No filme, o narrador está relatando o fato em um livro. Será que a arte não tem como ir um pouco além de relatar verdades? Ontem, quando voltava pra casa, já cheio de mudanças se processando dentro de mim - em parte, diga-se, devido à debilidade de minha saúde, o que é em parte pela falta de ter feito uma faculdade aliás - vi um homem e então os pensamentos se descontrolaram de uma vez...

Quando saí, soubera de uma vizinha que havia passado a noite em busca de atendimento médico e não pôde, por causa da greve, que é por salários atrasados do Governo, que têm uma relaçao direta com a enlouquecida sangria no dinheiro público provocada pela corrupção no Estado. Também soube que a Universidade Federal teve seu maior número de jubilados num ano, em virtude de alterações no calendário escolar, também por causa de greves, pelos mesmos motivos.

Enquanto isso, o novo Governo joga todas as luzes sobre as Reformas que pretende fazer na Economia do País. Todavia, não há a menor chance de uma Reforma dar resultado enquanto depender de acordos entre pessoas em meio às quais hah comprometimentos diversos com o outro Estado, o paralelo, que, diga-se logo, não é apenas o Tráfico, mas a indústria da educacao, a indústria da saúde, todos os grupos econômicos, enfim,que mandam no Brasil. O crime organizado simplesmente não sobreviveria sem a ajuda do Estado, da corrupção nas Assembléias Legislativas, nos Palácios, nas mansoes - muito mais que nos morros.

Lei nunca resolveu nada, aliás. O que pode resolver é construir estruturas que tornem possível a aplicaçao das leis. Está muito longe de ser o nosso caso, infelizmente - apesar, é verdade, de um corajoso esforço de muitos nesse sentido. A Lei diz por exemplo que "todos são iguais perante a Lei". Da realidade ou falsidade disso na vida real a gente pode tirar o resto.

Onde o Estado se omite ou simplesmente não existe, alguém vai ocupar esse espaço. Se aquela senhora, ao voltar pra sua casa, desesperada, fosse na casa do traficante e pedisse o que precisava, certamente seria atendida e seria mais um tijolinho nessa imponente construção de crime-impunidade-miséria etc. A industria do ensino, a indústria da saúde, a indústria da religião (sim, também) etc. reflete isso. Porque aquele traficante tem interesse em apoiar a candidatura de um certo político de sua região, que por sua vez tem compromissos com um empresário de sua cidade, e por aí vai se tecendo essa teia assustadora.

Uma faculdade em cada bairro garante diplomas, nao profissionais competentes; quem se serviu de apenas de um diploma para exercer uma profissão e não de capacidade profissional, não irá ter escrúpulos de pagar (ou receber) seja lá o que for para seja lá o que seja.

Essas industrias que atuam onde deveria atuar o Estado, com um bom atendimento médico gratuito, com uma educaçao pública de qualidade etc, são os empresários que vão financiar campanhas, intermediar acordos. Ontem vi o homem, um deputado acusado de receber uma grana em troca de favores. Um criminoso comum se esconde; esse tipo de pessoa, ao contrário, se exibe, exibe sua impunidade. É mais fácil eu ser preso por calúnia (ou talvez morto) por estar escrevendo isso, do que ele preso por corrupção. É mais fácil ele destruir a carreira dos promotores públicos envolvidos no caso. Pelo menos, hoje, ainda é assim. Caras vende muito mais que Caros e nominimo já teve de mudar de residência na internet, enquanto todos os portais falam do novo BigBrother, e o programa permanece firme como as montanhas. É um outro rosto, o rosto bonito, sedutor, desse Estado paralelo.

Então, quem manda em nosso País democrático? que povo? este povo: os donos de cursinhos, os donos de convênios médicos, os donos de denominações religiosas, os donos da mídia, todos, direta ou indiretamente, consciente ou inconscientemente até, ligados aos donos da droga, que são hoje os donos do mundo.

Então, que esperança resta? Desmontar essa estrutura é um esforço importante, mas não vai ser de hoje para amanhã. E de hoje para amanhã, não haverá nada que se possa fazer? Ah -como dizem- com certeza... Se eu sou professor e der um pouco de meu tempo a quem precisa aprender, se eu sou enfermeiro e estar disponível quando precisarem de mim, se eu tenho computadores novos e dou o usado pra uma comunidade e seu eu souber instalar programas e ensinar o seu uso. Educação e Saúde. Um detalhe importante: para isso, eu mesmo preciso um mínimo de condições de vida que me permita fazer essas coisas.

Assim, se uma Reforma da Previdência vai trazer benefícios aos meus netos, eu mesmo, com um mínimo, posso trazer benefícios a meu vizinho. Se a Inclusão Digital vai resgatar os ideais dos inventores da internet amanhã, a abertura das listas e blogs pode, hoje, salvar vidas. Com um mínimo, simples assim.

Aí, pensei em "Cidade de Deus", nos prêmios a que concorre, e lembrei de "A marca da Maldade", de "Traffic", que retratam aspectos dessa realidade: será o máximo que podemos esperar de uma obra de arte? será que a arte é assim tão inútil que saímos do cinema onde vimos Cidade de Deus e vamos para a frente da TV onde vamos ver o Globlo de Ouro, e no caminho nem percebemos que havia uma cidade, um País, que, pela "saída" de nós que foi a conscientizacão daquela realidade, por meio do filme, a cidfade, o País, as ruas ficaram diferentes - que havia no caminho uma pessoa que precisava contar comigo? De que arrependimento, de que pecado precisaremos?

Ricardo Rocha

Domingo, Janeiro 19, 2003

Eu acredito de coraçao que é possível, ao menos num sentido mais
amplo, amar por
vontade, o amor ágape. Quanto ao amor, no sentido amantes, veja o exemplo de
Narciso. Normalmente
se toma como ele ter visto a si mesmo nas águas e se apaixonado por si mesmo.
Parece-me, há outra
leitura, o fato de que, ao olhar as águas e nelas sua imagem, Narciso se
integrou num amor total,
integrou-se à própria Natureza, e, aquela pessoa, com aquela consciência de si,
de sua imagem, do
que ele era, poderia agora amar os demais seres com muito mais intensidade do
que aquele que jamais
se viu e por isso mesmo nunca pôde se amar a si próprio, e por isso, não
poderia amar ninguém, pois
não sabia o que era o amor pleno, íntegro.

Sexta-feira, Janeiro 10, 2003


"Filhos do Paraíso", que acabei de assistir, é outro filme não-americano, iraniano (segundo eu
soube fácil de encontrar por ter concorrido ao Oscar em 1999), que quase sempre é sinônimo de
não-entretenimento, o que pode ainda significar que seja chato e cansativo, além de obra-prima. Mas
é uma grata surpresa. Com a fórmula que pensamos ser às vezes de Cidade de Deus" (jovens atores
não-profissionais - antiga que só - Fama, no começo dos anos 80, já fazia isso, e mais ainda, nao
eram atores e continuaram nao sendo), o filme consegue ser por demais simples sem ser simplório, e
ganha a gente com uma mensagem impressionante, sobretudo num mundo religioso ao extremo e ao mesmo
tempo mais e mais dependente dos confortos da tecnologia. O fato é que a experiência de viver
inclui (para religiosos e nao-religiosos, para quem tem acesso às tecnologias de ponta e aos que
não) dor, sofrimento, de um modo ou de outro privaçoes, saudade etc. A falta de sabedoria no lidar
com as contrariedades constrói um mundo estranho, tem um efeito péssimo sobre o Homem, que supoe
deva domina-lo. E, como se espera da próxima versao do nosso sistema operacional, num novo
aparelho, num novo carro, numa nova tecnologia de celular (coisa do passado, blz...) que nos dê a
paz, assim se espera que a religiao resolva todos os nossos menores problemas sem maiores
aborrecimentos. "Filhos do Paraíso" vai num sentido oposto e mostra como, seja com o apoio de Alá
ou das possibilidades da súbita prosperidade ao redor, um menino e sua irma, repartindo um par de
tênis, mostrem tudo o que há de mais forte no caráter humano, sem perder a inocencia nem a
fragilidade.

Sábado, Abril 20, 2002

Porque quando eu clamo só escuto
o eco, penso se alguém além da pedra
terá ouvido minha voz; porque grandes
cabeças e corações, esquecidos
na terra plana, igual, sem montes
nem imponência, mortos, estão
ainda vivos para si mesmos,
disse a mim mesmo que não esqueceria
e iria subir até onde exista paisagem
além da devastação, e os irmãos
sejam pequenos e só pessoas
morem na casa onde a diferença
permanece e o silêncio seja muito
mais que intervalos entre a palavra
apodrecida na normalidade.
E eu disse: Por quê? Por que é assim?
E disse: O orgulho de deixar um legado
é maior que a herança material
que se recebe em meio à fumaça densa
confundindo os rostos e padronizando
as encostas. Eu não aprendi, não sei
quando parar. É estranho continuar
a caminhada quando não há mais varandas
acolhedoras à beira do caminho.
É um esforço desesperado.
Aonde ir?
Amigos! onde vocês estão?
Terá sido porque dei tanto de mim
que agora não tenho nada?
Levem-me para minha casa!
Amiga, verei de novo seu rosto?
Leve-me para minha cama.
Não me deixem morrer aqui...
Porque clamo e não ouço resposta,
exceto o discurso impessoal
dos caminhos. Há tantos assim?
Estou falando com você!
Ou talvez não, não
há esperança, estou falando
sozinho. É que insisto
em não confundir
efeitos com verdade
aplausos com talento
muita gente com alegria.
E no entanto estou só.
Não é a multidão
que me tirará da montanha solitária
Não é o tempo
que me tirará a inocência do grito
Não que alguém possa estar livre
da vaidade, mas pelo menos
posso estar
estar livre
em algum lugar
onde a gente tenha de não saber de cor
a cor dos próprios olhos
e só assim conseguir ver
saindo do quarto de espelhos
e ter diante de si a vida
lá fora
além
da devastação
subir.
até onde a paisagem não depende
mais de nós e, por isso mesmo,
fazemos parte dela, sendo
a palavra e o eco
E, lembrando,
calar sob o imponente reflexo
na pedra.




Por isso é que os poemas têm ritmo
-para que possas profundamente respirar

Mario Quintana
citado em Geracão Poesia.MeuBlog

"¿Cómo escribir ahora poesía,
porqué no callarnos definitivamente
y dedicarnos a cosas mucho mas útiles?
¿Se aclara algo con semejante ovillo?
Nadie la necesita".

Juan Gustavo Cobo Borda.

Inventamos sempre e sempre. A vida que não vivemos e aquela que atravessamos. Não importa o que façamos, sempre e sempre estamos inventando - um futuro feliz ou um passado que, se houvesse existido, nos teria feito felizes. Sem isso, não vivemos.

Imaginamos um rosto no rosto conhecido e, por força da falta do hábito, sonhamos com nossa iniciação nos transportes do amor. Somos de quem imaginamos ser mais do que seríamos de qualquer outra pessoa real; só em nossa imaginação as pessoas são reais.

Com o calor ocorrem pancadas de chuva à tarde, exceto no noroeste onde o ar volta a ficar mais seco, mas nada percebemos. Houve um golpe de Estado na América do Sul e no Brasil a atualização das projeções de exportações do complexo de soja brasileiro para 2002 apontou revisão para baixo na receita total estimada. Tudo acontece hoje. Mas ainda nos dedicamos a escrever, a inventar, a viver ontem e amanhã, a nos imaginar felizes. Seríamos alienados?

A noite é sempre a derradeira noite, o abandono. O cisne se oferece a qualquer um que tente compreender seu sacrifício. Deixa-se, aquieta-se no horto reticente. Levanta as asas, desce junto à árvore de frutos sagrados. Só precisa das asas e de um rosto que possa inventar, atrás da árvore, de cujos frutos não precisa; só precisa de alguém a quem possa se entregar, ao fazer real essa pessoa .

Como o cisne, não estamos aqui. Outrora e um dia, eis nosso lugar de felicidade. Precisamos da poesia. A magia das palavras e a busca da metáfora perfeita carregam nossas vidas nos fragmentos poéticos, escapando pela chaminé da fábrica em nossos escritos, que nem precisam fazer sentido, embora façam todo sentido. Não é uma escolha. De fato, se for uma escolha, já não será poesia.

Sexta-feira, Abril 19, 2002

Ao olhar minha filha recém-nascida, perfeita, junto à alegria, veio-me forte uma sensação estranha. A quem deveríamos agradecer por aquele momento sublime? Súbito, não havia a menor dúvida: Deus existe, e é amor.

Mas... e se houvesse uma anomalia? Só restaria dizer que existe mácula na amorosa de Deus. E, pais de uma criança excepcional, deveríamos por causa da dor, fechar os olhos ao Princípio Perfeito, e negá-lo?

Isso só aumentaria nossa dor.

Só tamanho paradoxo — a imperfeita perfeição — explica a sentença humana e as catástrofes naturais. A vida é assim — fora de nós e também dentro.

Somos como deuses, criando do nada, discernindo o bem e o mal; e, como os animais, sujeitos aos desejos, vindo do pó e indo na sua direção. Temos a eternidade no coração e somos esmagados pelo Tempo.

Se o intelecto resiste e diz que uma criança inocente não poderia estar sob o peso de tal maldição, a realidade mostra que a Natureza está sob este mesmo peso, a Natureza, muito mais inocente que qualquer criança, pois jamais se tornará um ser humano adulto cuja inocência se perdeu.

Fora de nós e também dentro, tudo aponta para o silêncio onde é possível vislumbrar o princípio perfeito e suas perversões. E, assim, mesmo em meio aos males, ter esperança.




Fiz de meu ser um campo de batalha
O mal deixou de ser filosofia
Quando a serpente entrou em minha casa.
Lá fora, angústia e cansaço,
sobre as cabeças a escuridão.
Suspiramos, gemendo
E gemendo choramos
Ao passarmos as trevas
No silêncio da seiva

(abril/2002)


O problemado Mal é um fenômeno às vezes quase visível entre nós, atingindo todas as pessoas. E ontem pude ler a abordagem mais impressionante acerca disso, não num livro de filosofia, ou psicologia, nem mesmo teologia — num romance.

Proust (Em Busca do Tempo Perdido: O Caminho de Swann) descreve a forte cena de lesbianismo numa casa de campo na qual uma das amantes induz a outra, enquanto faziam amor diante da foto do pai morto, a cuspir sobre o retrato.

Ao que o narrador reflete: “Pensei depois que, se o senhor Vinteuil pudesse assistir àquela cena, ainda assim, talvez não perdesse de todo a fé na bondade do coração da filha, no que não estaria de todo enganado”.

E conclui: O Mal não deveria ser exclusivo no coração da jovem, pois ela seria uma artista do Mal, coisa que uma criatura do Mal não poderia ser, uma vez que assim o mal lhe seria exterior e, para o mau, o mal deveria antes ser antes bem natural.

Anna Arendt espantou-se diante do julgamento de um dos mais bárbaros líderes nazistas: “O que me deixou aturdida foi a superficialidade: os atos eram monstruosos, mas o agente bastante comum e banal, nada monstruoso”.

Quer parecer que aquele que comete o mal age por inveja, pelo ódio puro e simples a tudo que represente o Bem, pela cobiça, vaidade, e é efetuado por pessoas cuja consciência má poderá ou não ser plena, mas existirá, em maior ou menor grau, retirando —mas não de todo— a inocência da irreflexão da Senhorita Vinteuil e, entretanto, além de monstruoso, o mal pode ser bastante banal, como no caso do nazista Heichman. Donde todos, o muito perverso e a pessoa comum estariam, de alguma forma, em graus diferentes, expostos ao mal.

A defesa contra o mal seria o amor, mas mais que isso, um amor de sacrifício voluntário, o amor é exorcismo, em nosso cotidiano, o Bem se expõe ao Mal e as pessoas boas, ainda que destroçadas, permanecem vivas, e quando isso acontece, há uma instabilidade no equilíbrio do poder de malignidade do mundo.

A magia do amor é transformar o nada, o vazio da vida humana, a banalização do Mal e a separação humana do Bem, a morte enfim, em alguma coisa, transformar-se de um fogo fátuo, como são os amores em geral, num zelo de preservação da verdadeira vida, no ágape. Esta é, de muitas formas, a função da literatura.

O princípio do Mal não é apenas uma arte sádica como a descrita por Proust, mas um desequilíbrio de morte, o desligamento vital. É um princípio de sedução. A anamorfose contemporânea do Mal é, como disse Baudrillard, infinita. Numa sociedade em que só se trata com gestão calculada e discursos de bem, torna-se difícil enunciar o Mal, que se irradia em todas as coisas, e nos expõe de uma forma viral.

Nunca saberemos se o nazismo era ou não inteligível, já é outro o discurso hoje consagrado, os questionamentos aceitos. Mas é certo que há sem dúvida essa noção da fragmentação das responsabilidades, de difração. Diante do Mal, se nos exige uma convergência entre pensamento e ação, entre palavras e vida, uma transformação dos sentimentos.

Quando há reação à dor, há resistência ao Mal que espreita no sofrimento. Até mesmo o Corvo, anjo das trevas de Poe, por contraste, nos deixa essa mesma sugestão. Lembremos que o autor estava entregue à leitura, buscando conforto para a morte da amada, quando aparece a ave e seu monocórdio nunca mais. Talvez quem tenha chegado mais próximo de definir essa superação poeticamente foi Rilke, em suas Elegias de Duíno, quando trabalha com o Mal como um agente do sofrimento e sugere supera-lo transformando as lamentações em celebrações, em rühmung (louvor). É isso o que faz na décima elegia: “Que meu rosto se ilumine, que a lágrima floresça”. O Mal, de mensageiro da morte, torna-se nosso melhor educador, o caminho mais consistente para chegar ao Bem verdadeiro.

Sábado, Março 23, 2002







Estou muito à vontade para falar





 







Estou
muito à vontade para falar (muito) bem de "Encontrando Forrester",
porque jamais gostei de Gus Van Sant. A tal ponto que, depois de assistir
"Um sonho sem limites" (com Nicole Kidman), na mesma época em que
assisti "Cenas da Vida", de Robert Altman, ambos filmes com
qualidades, decidi não mais ver obras de um ou de outro diretor. Por que
isso, se já estou partindo da premissa que são obras com qualidades?
Porque, àquela altura, era mais importante para Altman (O jogador) e Sant
(Garotos de Programa) antes de contar uma história por meio de um filme,
deixar claro para o espectador quem era o diretor da obra em questão. O
chamado estilo artificial. Porque é inevitável que, ao ver Hitchcock, 
Bergman,  Kurosawa, se
saiba que são eles, antes mesmo de ver os créditos, mas como conseqüência
de suas obras, não porque  decidiram
que deveriam ser reconhecidos antes dos créditos. A diferença é um
oceano. Uns são gênios; os outros são chatos. Mas um dia, assisti, distraído,
"Gênio Indomável", sem saber que era de Sant, e 
gostei. Infelizmente, houve  o
anticlímax que foram os exageros a que este filme foi alçado quando do
Oscar de 97.



 



Agora,
vem exagero inverso. Dizer que "Forrester" é uma cópia de
"Gênio" é, para ser educado, de um absoluto simplismo, o que, de
resto, tem se tornado praxe entre os intelectuais ligados à crítica, mas não
imaginei que fosse uma prática disseminada entre nós, simples leigos que
amam o cinema.  Os pontos
semelhantes entre os dois filmes estão exclusivamente ligados ao tema da
amizade e influência recíproca (o que afasta em princípio derruba
até mesmo o elo pelo tema do “mentor”)  entre
um jovem e uma pessoa experiente, ligados por um ideal. “Forrester” e
“Wonder Boys” têm a mesma distância que há entre Sean Connery e
Michael Douglas, restando (e olhe lá), o ato de escrever como “semelhança”,
o que, convenhamos, é muito pouco.  E
dizer que "Forrester" é bom, mas "não tem nada
demais", é ter padrões realmente altos. Porque gosto, em alguns
casos, se discute sim, como não!?...  Ninguém
disse por que acha essas coisas. Vamos ver se consigo dizer por que
acho o que acho...



 



O
ator principal tem 72 anos, uma carreira sólida, talvez uma das mais sólidas
do cinema, um currículo onde se você procurar muito vai achar um filme
inferior. Mesmo nos filmes de puro entretenimento, como os 007, foi tão
marcante que nunca apareceu um outro que lhe pudesse fazer sombra. Tem
interpretações antológicas, como em A Casa da Rússia e Os intocáveis. Dá
credibilidade até a personagens que noutra pele não a teriam, como o
mentor (seria uma cópia?) do "Highlander" Christopher Lambert. É
considerado um dos maiores declamadores da língua inglesa, há décadas,
apesar de seu sotaque escocês, que não é, historicamente, uma virtude,
sobretudo entre ingleses. Em quase todos os seus personagens, mergulha de
tal forma  que realmente os
encarna e, no caso particular de "Forrester", isso se estende ao
fato de ser também o produtor do filme, vale dizer, acreditou na obra a
ponto de financia-la.   



 



O
ator que contracena com ele, Rob Brown,  é
um estreante, mas ninguém percebe, tamanha a sua naturalidade segurança. A
atriz que contracena com este menino negro se consagrou ainda menina,
ganhando um desses poucos Oscar inquestionáveis em "O piano". O
ator que faz o professor que persegue o protagonista é o mesmo que fez
aquele vilão fantástico que perseguia Mozart em Amadeus. A música é
contagiante, ilustrando a ação, sobretudo em função dos improvisos a que
se relaciona música e literatura, particularmente na cena da máquina de
escrever. Nessa trilha sonora aparece ninguém menos que Miles Davis, um dos
maiores improvisadores do jazz. E Miles, sabemos, respira e sopra na hora
certa, suspira, e, aqui, sublinha. A história é um apelo constante a que o
filme desande para o melodramático, o que, porém, nunca acontece, graças,
supõe-se, à mão equilibrada do diretor, mas é possível que também seja
obra do roteiro. A fotografia tem momentos sublimes, como o jovem nas
escadas exteriores na noite e nas sombras, e seu diálogo com a música,
especialmente na cena do álbum de fotografia é belíssima.                       



 



"Encontrando
Forrester" é a história de um jovem de 16 anos e um velho escritor de
70, em meio a uma improvável amizade. O fato é que hoje, as amizades
verdadeiras, em geral são improváveis, fugazes. Interessante detalhe:
Todas as pessoas que criticam o filme criticam enquanto cinema, como se um
filme existisse por si mesmo, como se o homem existisse por causa da arte e
não o inverso. É também uma apologia singela a um tipo de relação que
se tem deteriorado como careta, que, quando não, se tem banalizado —a de
pessoas experientes e jovens em que se vêem, em última análise, a de pais
e filhos (como, de resto, o texto de Jamal lido por Willian, no final,
frisa). E, no entanto, é um aspecto básico das relações humanas, tão em
descrédito, a importância da família.  Não
há mais hoje (pelo menos como regra) essa troca densa, que é esse tipo de
relação.



 



É
ainda um filme sobre preconceito. Alguns argumentam que é um filme que
sucumbe ao preconceito (pelo fato de Jamal e Claire não se beijarem...)
Entretanto, seja isso realidade (é possível, o cinema ainda é um reflexo
da sociedade, por mais que tente transcende-la), quem viu, por exemplo,
"Segundas intençoes", com sua relação inter-racial -e aquele
beijo no parque-,  ou o capítulo
de sexta-feira de “Desejos de Mulher”, saberá que um filme pode TER
esse tipo de abordagem e permanecer preconceituoso. Ademais, o filme não é
sobre o amor de Jamal e Claire (e mesmo não sendo, a cena do basquete no
terraço é emblemática), mas sobre a amizade de Jamal e Willian. "Forrester"
permanece sendo um filme de reconciliação das pessoas e superação do
preconceito, sobre comunicarmos com os espíritos e evocar uma vida possível,
ainda que utópica, em que as pessoas valham pelo que são, independente de
todo o resto, cor, credo, status, etc. Ou seja, atualiza o que hoje é
impossível, visa o ingresso no que Eliot chama "uma terra em
plenitude".  E, finalmente,
é uma apologia à literatura, à cultura como meio de embelezar a vida, a
coisas esquecidas como regras gramaticais ligadas à beleza e a beleza
ligada a tudo o mais.  



 



Quem
ainda acredita na vida, contra todas as expectativas, quem ainda acredita na
redenção, contra a realidade ao redor, 
sabe que este valor, o humano, já seria suficiente para que "Forrester", 
além de ser um filme muito bom, 
criativo, absolutamente inédito, inclusive e, sobretudo, na obra de
Sant, tenha esse algo a mais

e
seja, como alguém da lista aliás disse, especial.   





 



Ricardo
Rocha


ricarddr@escelsa.com.br






Segunda-feira, Janeiro 21, 2002

O Brasil é refém do crime. Não por causa do desemprego (que é cruel), nem da ousadia dos bandidos (que é inacreditavel), mas pela falência da autoridade pública. O Estado sumiu. (in no 22-01)

Agora me diz se é um País sério: um Comitê Gestor procura nas entrelinhas de nossos blogs algum plano mirabolante, enquanto nas linhas garrafais os bandidos assassinam mais um; a reportagem de capa do Fantástico é sobre os campos da Alquaeda, enquanto nos campos do nordeste há fome, trabalho infantil, e noutras regioes turismo sexual tambám infantil; Somos refés e a solucao se parece muito com a repressao da droga: vao fazer a prisao "perpétua", como se fosse resolver. A solução é acabar com o celeular prépago!... Fala sério... O que resolveria seria uma vez na vida dar uma olhadinha fora de seus gabinetes de alianças, onde veriam que tudo que está aí fora é resultado, não é causa, é consequencia de uma sucessao de erros, intitucionais, dos pais, das comunidades, que demos nas mãos do crime tudo o que o crime tem. Aí, ano de eleicao, todo mundo tem, acontecá a o que aconteecr, um discurso messianico na ponta da língua. É patético, é simplesmente patético. Acho que vou começar a pensar seriamente em voltar para Portugal.